Terça-feira, 12 de Maio de 2009

Sandro Ka, Coordenador do Ponto de Cultura do SOMOS recebe o prêmio Açorianos de Artes Plásticas



O Prêmio Açorianos de Artes Plásticas, que está em sua terceira edição e é considerado o mais importante das Artes Plásticas da cidade, conferido pela Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre, foi entregue no último dia 8 de maio, na capital gaúcha, em cerimônia realizada no Teatro Renascença.

Sandro Ka, artista plástico e coordenador do Ponto de Cultura LGBT do Grupo SOMOS Comunicação, Saúde e Sexualidade, recebeu o troféu, que é uma escultura em bronze, assinada por Xico Stockinger, pela categoria “Catálogos, textos e livros” pelo Livro – Objeto de desejo, fruto de sua exposição apoiado pelo SOMOS, que foi mostrada no Paço Municipal em 2008.

Ka foi a revelação do Prêmio e grande surpresa da noite, pois era um dos artistas mais jovens e estava concorrendo com o Coletivo TRANSFER, que expôs no Santander Cultural, Iole de Freitas, que expôs no Museu Iberê Camargo, além de Mônica Zielinski e Sonia Salzstein por Moderno no Limite e Paulo Gomes, Anico Herskovits e Alfredo Nicolaiewsky por Pedro Weingärtner:“Obra gráfica”.

Entre artistas, grupos, especialistas e instituições, o júri fez 73 indicações em 15 categorias. Foram homenageados por suas carreiras Décio Presser, Luis Carlos Lisboa e Xico Stockinger. O júri de premiação foi composto por Gisele Menezes, Walmor Corrêa, Mara Caruso, Gaudêncio Fidellis e Ana Flávia Baldisseroto.

Domingo, 10 de Maio de 2009

Prêmio Açorianos de Artes Plásticas 2009


Relações Ordinárias: livro-objeto de desejo, de Sandro Ka, é o vencedor do Prêmio Açorianos 2009 na categoria Destaque em Textos, Catálogos e Livros Publicados.

O livro é o resultado dos trabalhos da exposição Relações Ordinárias que pode ser conferida até o dia 20 de agosto no mesmo local. O livro não é apenas um catálogo, mas sim a possibilidade de ver, pensar, não-pensar, relaxar, questionar, desejar o que o artista nos mostra através do olhar de outros três artistas visuais de diferentes áreas, que agregaram outras linguagens e encararam a brincadeira como um desafio.

Cassiano Stahl foi convocado a brincar com as palavras e estruturas teórico-conceituais de um texto que tivesse em sua gênese a palavra ordinário. Mayra Martins Redin veio para revelar através da fotografia outras possibilidades de se contemplar objetos comuns. Kátia Ozório surgiu com a árdua missão de integrar imagens e palavras no pensamento do projeto gráfico.

Para Sandro Ka a proposta era expandir o trabalho a partir de sua idéia norteadora. “O principio de jogar com a idéia de relação ordinária, e que este conceito pudesse ser compreendido nas mais variadas formas, assumindo quaisquer formatos, compreendendo o sentido do termo como a possibilidade de relacionar elementos de diferentes lugares e funções”, afirma.

Nos trabalhos da série Relações Ordinárias, Sandro realiza composições a partir da associação entre diversos elementos cotidianos. Nelas, o artista cria “cenas” onde diferentes objetos estabelecem relações entre si e têm, conseqüentemente, seus sentidos re-significados. Nestas relações, narrativas e imagens que povoam o imaginário coletivo e popular são representadas de curiosas formas. Entre elas, figuram: São Jorge e o dragão, o martírio de São Sebastião, deusas mitológicas em situações cotidianas, entre outros inusitados cruzamentos envolvendo elementos decorativos kitsch, estatuetas em gesso e brinquedos. São trabalhos que propõem uma discussão sobre a maneira de “ler” imagens e objetos e sobre as possibilidades de criação de novos sentidos para coisas tão banais. O processo artístico do artista é permeado pela intenção de promover deslocamentos de sentido e função a objetos e imagens cotidianos, advindos do imaginário da cultura popular e de massa. Através de meios diversos como intervenções artísticas, desenho e manipulações de objetos, o artista apropria-se de elementos banais agindo, de forma lúdica e irônica, sobre sua carga simbólica, a fim de criar outras possibilidades de significação.



Domingo, 17 de Agosto de 2008

Relações Ordinárias: apropriar, deslocar e fabular


Sandro Ka é um cínico. Irônico artista desalmado com nossas pobres ignorâncias de senso de humor e alheio à pobreza de nossos chistes jocosos, apenas sorri. Pequeno ordinário.

Então, nada mais adequado do que uma obra que verse sobre o tema: ordinário. Aqui já aparece o primeiro sinal da ironia de Sandro: a palavra que pode representar o safado, impetuoso, enganador.

E com que safadeza nosso pequeno-grande artista começa a brincar com nossas impressões da realidade quando, numa cestinha de 1,99 encontra um material absolutamente comum (ordinário, ei-lo), paga, leva e assume o pequeno bibelô de plástico ou gesso nas suas experiências Frankenstein. E ninguém percebe. O gatuno! Guarda um segredinho, junta uma, duas ou três pecinhas e voilà! Um objeto artístico novinho em folha, cheio de conexões formais e teóricas, feito das matérias mais simples e absolutamente comuns do planeta! Fácil? Pode esquecer! O mais irônico da coisa é que o menino passa dias pensando na combinação adequada e então, em algum momento. Click! Uma conexão se estabelece. Então o público olha e pensa “mas eu podia ter pensado nisso!”. Mas não, não pensou.

Falando sério. A obra de Sandro Ka concentra e trabalha muito mais do que meras relações formais. Abre os olhos para o contexto de um processo criador que se apresenta e reveste de elementos comuns do cotidiano. E que ao mesmo tempo os questiona. Pois na apropriação destes objetos, que inicialmente não possuem relações entre si, adquirem novos valores, desde seus elementos formais até a significância de suas palavras compositivas. É o caso de seus trabalhos inicias com a imaginária cristã. Como bem se sabe, a força da imagem dos santos da igreja é por demais intensa, arraigada num contexto de fé pública. Suas formas carregam simbologias profundas advindas de mais de 2000 anos de cultura construída sob bases judaico-cristãs e elementos do sincretismo de outras seitas pagãs. Um prato cheio para o artista atento, que vê nessa carga a possibilidade de “fazê-la em pedaços” e reconstituí-la junto a outros elementos sem relação aparentada ou instituída. Imagens de santos populares são cortadas em pedaços e depois guardadas em caixas, ou “relicários”, fazendo uma clara alusão aos relicários cristãos onde residiriam partes físicas dos santos de devoção (sangue, ossos ou restos de tecido).

Logo, Sandro passa a outro processo, mais elaborado: o de uma composição desses elementos com outros. Assim, se antes o objeto era pulverizado em sua totalidade, agora ele é reconstituído com outro elemento que cria um diálogo conceitual e físico. Duas condições dialeticamente colocadas em junção para a produção de um terceiro, um elemento de reconfiguração. Este elemento estrangeiro geralmente cria padrões inusitados, onde o resultado mais interessante reside na ironia e no humor. Pois desagradem-se os puritanos, os crentes ou os estetas da arte e do “bom-gosto”. A ironia que o objeto passa a carregar abala qualquer fé, seja religiosa ou no cunho estético de uma arte pensada dentro de um contexto platônico do belo e do bom.

Diversão é uma palavra que combina com o trabalho de Sandro. Diversão para ele! Tortura para nossa cabeça acostumada a instalações elaboradas e conceituações pseudo-estéticas. Mas engana-se pensar que, por lidar com brinquedos e objetos Kitsch, o trabalho do artista tenha alguma “ludicidade”. Antes, o irônico irrompe com força em cada objeto, que deixa de ter seu valor pequenino e tímido de brinquedo ou objeto de massa, produzido em série, para virar um conjunto operacional de raciocínio. Creio que esse pensar começa na análise da estética de inocência enganadora para depois se repensar o lugar que esse novo objeto ocupa. Não é mais o santo, nem o brinquedo de borracha, ou muito menos a peça de gesso. É um momento único, um flash de revelação do momento criador. É um mestiço num país estrangeiro que fala a língua estranha. E por isso mesmo pede por uma tradução – que sempre será incerta. Cada peça torna-se, assim, objeto móvel que pode perpassar e atravessar contextos e perspectivas inúmeras para se justificar.

De fato, o grande interesse da obra não é, apenas, o deslocamento conceitual dos objetos, ou sua apropriação e reconstituição. Tampouco somente a ironia. Talvez o tema central seja o de um deslocamento do espaço daquele que observa o trabalho do artista. Ora, quem não irá repensar os contextos de suas próprias crenças e valores (não só religiosas) quando se depara com a fragilidade dos significados que atribui aos objetos que fazem parte de sua vida? Quem também não irá pensar seu lugar nesse “espaço cênico” construído para direcionar o olhar e criar um efeito dramático de cena? O drama de sua própria vida?

Em filosofia, se pensa a arte enquanto Vida. Uma não descola-se da outra. O trabalho de Sandro Ka traz, portanto, relações com a vida cotidiana, mundana –ordinária. Desde sua pequenez até a irônica invenção e fabulação que dela fazemos. Como nós mesmos tentamos criar espaços cênicos para dar conta de uma vida que por vezes pode ser intolerável se vivida em sua dura realidade, sem ludicidade, sem essa brincadeira. Mesmo que irônica. O que seria pior que uma vida ordinária?

Talvez, uma vida sem relações.

Cassiano Stahl

POA. Maio de 2008.

Sobre desejos que se realizam


Ao decidir mostrar integralmente a produção artística realizada durante meu trabalho de graduação em Artes Visuais de 2007, imaginei que fosse uma deixa para fazer um exercício diferente: criar um pequeno livro, um objeto que tivesse caráter de desejo – um objeto de desejo. Um objeto que falasse de desejos e coisas, de coisas que se misturassem. Um objeto que fosse um misturador de coisas, de palavras e imagens.

A proposta era expandir o trabalho a partir de sua idéia norteadora: o principio de jogar com o conceito de relação ordinária, e que este pudesse ser compreendido nas mais variadas formas, assumindo quaisquer formatos, compreendendo o sentido do termo como a possibilidade de relacionar elementos de diferentes lugares e funções.

Neste momento, convidei três artistas visuais de diferentes áreas, que encarassem a brincadeira como um desafio. Cassiano Stahl foi convocado a brincar com as palavras e estruturas teórico-conceituais de um texto que tivesse em sua gênese a palavra ordinário. Mayra Martins veio para revelar através da fotografia outras possibilidades de se contemplar objetos comuns. Kátia Ozório surgiu com a árdua missão de integrar imagens e palavras no pensamento do projeto gráfico.

Este desejo motivou a existência deste pequeno-livro-dos-desejos, que você tem em suas mãos. Uma coisa outra que tem a ver com desejo. Desejo de ver, de mostrar, de pensar, de não-pensar, de relaxar, de questionar.

E sim. Desejos que se realizam.

Sandro Ka

Sábado, 12 de Julho de 2008

Relações Ordinárias

Domingo, 29 de Junho de 2008



Encontros Inesperados


Sandro Ka é um jovem artista que vem a público apresentando sua exposição individual – Relações Ordinárias. É um artista que trabalha a partir do conceito de apropriação, se filiando a um tipo de produção que tem como nomes mais conhecidos e recentes León Ferrari e Nelson Leirner. Como eles, Sandro utiliza objetos bastante conhecidos, como brinquedos e imagens populares de gesso, muitas vezes religiosas, formando conjuntos. Acredito, porém, que as semelhanças param por aí.

León Ferrari trabalha com estes elementos, principalmente as imagens religiosas, com um caráter extremamente crítico à igreja católica. Seu alvo é bem específico. Nelson Leirner, diferentemente, tem como características mais marcantes o humor e a enorme acumulação de elementos.

Sandro opera em uma esfera um pouco diferenciada. Trabalha com poucos elementos de cada vez e cria um espaço cenográfico para eles. Estes espaços lembram pequenos palcos ou tablados onde acontecem encontros inusitados e instigantes. As relações propostas entre os objetos são aparentemente simples: São Francisco e os animais, São Jorge e o dragão, Vênus, a deusa da mitologia, tomando banho. Não devemos, entretanto, esquecer que estes são temas clássicos na tradição pictórica ocidental. O inusitado e cativante nestas obras é ver estas situações representadas a partir de elementos com origens e materiais tão díspares: a tradicional imagem de São Francisco em gesso, cercado por bichinhos de plástico; Vênus em uma banheirinha de boneca, Nefertite, a princesa egípcia, também uma reprodução popular em gesso da famosa escultura, junto a bonecas para as meninas brincarem de maquiagem, e assim por diante.

Não há nenhuma crítica, nem à igreja, nem à produção em massa de objetos, tão marcantes em nossa sociedade atual. O que se evidencia é um olhar curioso e carinhoso com todos os elementos da cultura de massa, sem distinções de origens, sem preconceitos. Mas também propõe uma discussão sobre a nossa maneira de “ler” imagens e objetos, sobre os deslocamentos de sentido das coisas quando estas não se encontram nos lugares esperados, e principalmente sobre as possibilidades de criação de novos sentidos para objetos tão banais. Ou seja: são trabalhos falsamente simples, onde basta um olhar mais atento para começarem a surgir questões.Mas o melhor mesmo é ver as obras do Sandro com o espírito aberto, tentando deixar o nosso lado criança se divertir e, ao mesmo tempo, nosso lado adulto refletir.

Alfredo Nicolaiewsky
maio de 2008